Contentamento, onde estás?
- Aryane Rodrigues
- 6 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de mar.
não se dissipe, não se enfraqueça, não se perca
Na manhã de ontem, fui tomada por um sentimento muito bom. Um sentimento para o qual eu não sabia dar nome, mas que me fez enxergar as coisas — e a minha própria vida — de uma maneira diferente.
Ao entrar no meu escritório — o lugar onde passo a maior parte dos meus dias e da minha vida —, fui transportada para um tempo em que nada disso existia. De repente, percebi que tudo o que há ali, cada objeto, cada detalhe, não está apenas ocupando espaço. Tudo existe porque, em algum momento, surgiu dentro de mim um desejo, um propósito, uma necessidade real de dar forma a algo maior.
E, ao olhar ao redor, entendi que, apesar de serem apenas coisas materiais, esses objetos carregam histórias. No fim, eu poderia continuar o meu caminho sem um pincel, sem uma caneta, sem qualquer uma dessas ferramentas. Porque, se o propósito realmente existe, ele se cumpre independentemente dos meios. Mas essas coisas estão ali porque, de algum modo, fizeram parte do processo. Elas não são sobre conquistar pessoas ou o mundo. São sobre conquistar aquilo que existe dentro de mim e trazê-lo para fora.
Naquele momento, tive a certeza de que ninguém além de mim sabe exatamente o que foi necessário para chegar até aqui. Ninguém sentiu as renúncias que fiz, as noites que não dormi, as emoções que transbordaram ou aquelas que sequer tive tempo de sentir. No fim das contas, só eu posso olhar para esse espaço e reconhecer, de forma genuína, a satisfação que ele me traz.
Por mais que recebamos elogios, seja na vida real ou nas redes sociais, a verdade é que apenas nós mesmos conhecemos o real valor e a importância do que construímos. Só cada um de nós pode sentir orgulho e compreender verdadeiramente o significado do que somos e do que temos. Porque apenas quem viveu a jornada sabe o esforço, as dores e as angústias que precisou atravessar.
Então, ali, diante daquele ambiente — que poderia ser apenas mais um entre tantos, ou um espaço único, porque carrega as minhas marcas —, senti orgulho de tudo o que sou e construí. E não pelo que está materialmente presente, mas pela forma como cada coisa foi conquistada. O que realmente importa é que tudo foi feito com cuidado, com verdade, com justiça, sem desviar do que acredito. Cada escolha ajudou a formar quem eu sou.
E hoje, ao navegar pelos stories do instagram, encontrei o nome desse sentimento. Existe uma palavra para ele: contentamento.
Mas por que essa palavra me escapou? Talvez porque estejamos muito distantes dela. Vivemos em um tempo — e, sobretudo, passamos tempo em um ambiente virtual — onde esse sentimento parece não ter lugar. O que engaja não é estar satisfeito, mas desejar mais. O que vende não é reconhecer o que já temos, mas buscar o que nos falta. Somos bombardeados o tempo todo com fórmulas para mudar de vida, para crescer, para enriquecer. Como se o que somos e o que temos hoje nunca fosse suficiente.
Já dizia Byung-Chul Han: estamos sempre correndo atrás de mais, mas nunca paramos para perceber o que já temos.
E, assim, o contentamento — e a experiência desse sentimento — vão sendo esquecidos. Até desaparecerem.
A pergunta que fica é: será que já não temos ao nosso redor tudo o que precisamos para nos sentirmos contentes e verdadeiramente felizes?
Talvez eu ainda não tenha alcançado tudo o que sonhei. Mas construí coisas que jamais imaginei que conseguiria. E isso já me deixa contente.
A própria existência é uma dádiva. Estarmos aqui, agora, podendo olhar para tudo o que somos, já é um motivo suficiente para sentir contentamento. Às vezes, a vida não vai bem, mas isso não significa que nosso passado e presente seja uma sentença para o futuro. Tudo o que estamos plantando hoje, em algum momento, dará frutos. Mas, para continuar, precisamos aprender a valorizar o que já conquistamos.
E aqui cabe uma distinção importante: contentamento não é conformismo.
Contentamento não significa estagnação. Não significa parar de sonhar, de buscar crescimento, de querer mais. Significa aceitar conscientemente o presente, reconhecer o que já construímos, sem ignorar o que ainda pode ser feito. É um equilíbrio entre desejar o novo e valorizar o presente.
Conformismo é a aceitação passiva de uma realidade que não nos satisfaz. É se acomodar sem questionar, sem se permitir evoluir. Mas o contentamento nos dá força para continuar porque nos permite ver que o caminho também importa, não apenas o destino.
Se não soubermos olhar com amor para o que já fizemos e temos, o que conquistarmos amanhã não terá valor algum.
Então, meu lembrete hoje é para que o contentamento — e, mais do que isso, para que a experiência genuína desse sentimento — não se dissipe, não se enfraqueça, não se perca.
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