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Contraponto Criativo

O silêncio necessário

  • Foto do escritor: Aryane Rodrigues
    Aryane Rodrigues
  • 19 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 6 de mar.

aquele que resgata a vida em um ato sagrado e contemplativo



Estamos gradualmente abandonando um espaço vital — aquele que resgata a vida em um ato sagrado e contemplativo: o espaço do silêncio e da solitude.


– Hasegawa Tohaku, Shōrin-zu byōbu
– Hasegawa Tohaku, Shōrin-zu byōbu

"Shorin-zu-byobu", de Hasegawa Tōhaku, é uma obra-prima do século XVI e uma das mais célebres pinturas japonesas, reconhecida como Tesouro Nacional.


Um dos elementos mais impressionantes e notáveis dessa obra é a névoa que envolve os pinheiros, ocultando toda a paisagem ao redor. Essa névoa simboliza um signo, uma força, uma transformação; ela simboliza o vazio.

Historicamente, o conceito de vazio possui uma significativa importância nas tradições religiosas japonesas. No entanto, esse vazio, vai além de simplesmente representar a ausência de elementos. Ele é representado pelo ideograma 間 (Ma), um conceito que expressa o "entre" — o espaço intermediário entre duas partes, reconhecido também como silêncio ou espaço em branco.


O 間 (Ma) é um espaço de potencialidade, um estado de transição que serve como uma preparação para alcançar um novo estado.


間 = 門 + 日 (portão + sol)

“O Ma origina-se da ideia de um espaço vazio demarcado por quatro pilastras no qual poderia haver a descida e a consequente aparição do divino. O espaço seria, assim, o da disponibilidade de acontecer e, como toda possibilidade, o fato poderia concretizar-se ou não.”

A primeira vez que li sobre o 間 (Ma) foi em meio a pesquisas sobre o "movimento gratuito" utilizado por Hayao Miyazaki em suas encantadoras produções.


É impossível não se interessar pela simbologia de suas narrativas, e quem já assistiu a uma animação do Studio Ghibli sabe como é cativante quando uma ação é temporariamente relegada ao segundo plano, apresentando cenas que, sem nada de "extraordinário", são carregadas de significados.


Momentos simples, como uma paisagem, um pôr do sol ou gotas caindo ao chão, evocam emoções intensas. A quietude e o silêncio na tela geram uma profunda catarse.


O Serviço de Entregas da Kiki (1989) produzido, escrito e dirigido por Hayao Miyazaki - Studio Ghibli
O Serviço de Entregas da Kiki (1989) produzido, escrito e dirigido por Hayao Miyazaki - Studio Ghibli

Em uma entrevista ao crítico de cinema Roger Ebert, em 2002, Miyazaki explicou seu significado:

"Chama-se Ma. Vazio. Está lá intencionalmente […] Se você apenas tiver ação ininterrupta sem espaço para respirar, é apenas agitação. Mas se você parar um momento, então a tensão que se constrói no filme pode crescer em uma dimensão mais ampla. Se você tiver tensão constante a 80 graus o tempo todo, você simplesmente fica entorpecido."

“Se você apenas tiver ação ininterrupta sem espaço para respirar, é apenas agitação


Não é assim, agitados e entorpecidos, que nos sentimos frequentemente neste mundo cada vez mais digitalizado? Um mundo onde o ruído e a agitação são fenômenos crescentes, onde cada detalhe exige nossa atenção, cada momento nos consome e tudo está condenado a desaparecer pela pressa.


O ruído incessante da comunicação digital e dos dispositivos eletrônicos transformou o silêncio em incômodo e o vazio se tornou estéril. A solitude, quase esquecida, foi deslocada para um plano secundário em nossas vidas.


Estamos, aparentemente, desenvolvendo um medo do silêncio. Ele tem causado desconforto, levando-nos a constantemente mascará-lo ou disfarçá-lo. Celulares e redes sociais, profundamente integrados ao nosso cotidiano, alimentam esse medo ao nos manter ansiosos e preocupados com o tédio causado pela ausência de novidades.


Nessa dinâmica de barulho e tédio, nada parece florescer. “A alma não reza mais”. A capacidade de contemplação e de manter a atenção focada se torna cada vez mais comprometida. Tudo isso é resultado de estarmos apressados, distraídos e entorpecidos por uma rotina frenética.


– Louis-Jacques-Mandé Daguerre, Paris Boulevard
– Louis-Jacques-Mandé Daguerre, Paris Boulevard

Podemos extrair uma reflexão interessante sobre a permanência do que é gerado em estado de quietude a partir desta foto tirada em 1839 por Louis-Jacques-Mandé Daguerre. A fotografia Paris Boulevard retrata uma rua movimentada de Paris que, aparentemente, está vazia. No entanto, a luz do dia evidente na imagem levanta a questão: onde estão todas as pessoas?


A resposta está no longo tempo de exposição que não foi suficiente para capturar objetos em movimento de forma clara, mantendo apenas os elementos imóveis. Além das árvores e prédios, apenas um homem que estava tendo seus sapatos engraxados foi capturado. Isso ocorreu porque ele permaneceu imóvel e quieto por tempo suficiente para ser registrado na imagem.


Não é interessante? Já pensou em como tudo o que se apressa em ação ininterrupta está, em alguma medida, com o prazo contado para desaparecer? Em Paris Boulevard isso fica evidente: apenas o que é estático e paciente é preservado com clareza.


"O silêncio que redime”


O convite à quietude e ao silêncio está em todo lugar. Não nos faltam referências na arte, na literatura, na fotografia, na filosofia e em outras áreas, tanto na cultura oriental quanto na ocidental, que nos lembrem do seu valor.


Será que estamos distraídos demais para perceber?


Seja atenção, compreensão, contemplação ou memória — parafraseando Byung-Chul Han, é o silêncio que redime e aguça. Os espaços vazios e as folhas em branco, a suspensão e a reclusão da agitação do mundo são espaços de potencialidade. Um espaço onde nada, e ao mesmo tempo muitas ideias, podem surgir e transformar-se. Onde a contemplação pode tocar o divino. Lembre-se disso.

Termino a minha reflexão de hoje com as palavras de Josef Piper:

“O que é que se ganha e se conquista em tal Silêncio? O que se ganha nesse Silêncio profundo é talvez a investidura, a autorização para usar a palavra. Pois se esta não vier do Silêncio que ouve, seria falatório desenraizado, ruído e fumaça.”

Até a próxima.

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