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Contraponto Criativo

Entre Vidas Passadas e Dias Perfeitos: o contentamento.

  • Foto do escritor:  Jess Rangel
    Jess Rangel
  • 17 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 18 de mar.

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Se você deixa algo para trás, você também ganha algo.

— Vidas Passadas, 2023.


Essa semana eu fiz algo que eu acho que nunca fiz na minha vida: fui ao cinema 3 vezes num espaço curto de tempo. Com o objetivo de ver os filmes indicados ao Oscar, entreguei-me por completo à experiência imersiva de ver o filme com total atenção e sem distrações para me deleitar com a sétima arte como se deve ser feito e, confesso, o quão prazeroso isso foi para mim. Constantemente pensava: eu deveria fazer isso mais vezes”. E, de fato, eu farei.


Em um mundo de imediatismos e correria, o cinema cede espaço para o descanso e contemplação. Isso sim é deveras valioso. Entre alguns filmes assistidos, há dois que se destacaram para mim cuja a premissa de ambas, a priori, parece não ter semelhanças. Entretanto, no meu universo particular, elas dialogaram muito entre si e tal modo que me deixaram profundamente tocada. Estes dois filmes, desenvolvem-se a partir do silêncio, na calma e no sossego – motivos suficientes para se ter a experiência imersiva de vê-los no cinema: é algo único.


Vidas Passadas, por exemplo, é um filme que te abraça, te envolve de tal forma que é difícil não se cativar. A direção de Celine Song é intimista e acolhedora e com tanta beleza que não nos contentamos em ver apenas uma vez, queremos revisitá-lo. A história não contém mistérios: Hae e Nora, que eram amigos e paixonites de infância, reencontram-se na anos depois e questionam-se como seria a sua vida se não tivessem se separado. A partir dessa premissa, os personagens lidam com os dilemas do “e se”. E se a Nora não tivesse saído da Coreia do Sul para morar nos Estados Unidos? Que tipo de vida ela teria? Quem ela teria se tornado?


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O que se destaca para mim, no entanto, não é o quase romance entre eles, mas sim a postura da Nora e, especialmente, o seu relacionamento com o seu marido. Em um mundo que aplaude histórias de amor mirabolantes, é de salutar uma história que nos entrega personagens humanos e também maduros, que aceitam as complexidades da vida e seus dilemas com sobriedade. Essas camadas a serem desvendadas ganha vida de forma magnífica pela atriz Greta Lee.


A meu ver, a Nora é, sobretudo, ciente de seu lugar no mundo, ciente de quem ela e do que conquistou. O pensamento do “e se” não nos é imposto como a premissa absoluta na história e sim como uma das diferentes nuances do nosso coração humano em tentar desvendar os mistérios da nossa vida. Independentemente do caminho, a Nora sabe que tem satisfação na jornada que ela trilhou para si mesma. Satisfazer-se com a vida não viver isento de suas complexidades e desafios. É entender que, apesar deles, estamos no lugar que deveríamos estar, é a alegria de viver a vida que se tem.


A virtude do contentamento, por sua vez, floresce magistralmente no filme Dias Perfeitos dirigido por Wim Wenders que está a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Ao acompanharmos a vida de um homem de meia-idade que trabalha a limpar os banheiros públicos de Tóquio, vemos a rotina calma e sossegada de um senhor que contenta-se com os pequenos prazeres da vida: ler um bom livro, apreciar uma bela paisagem, ouvir uma boa música e capturar a beleza do momento através da fotografia. Sua vida é simples, porém não simplória. O seu trabalho é feito com zelo e excelência. Ele a vive de forma plena e aprecia o presente momento— não o passado, nem o possível futuro. De fato, apreciar o presente não é somente uma dádiva como também um fator constituinte do contentamento.


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Para estar contente, é preciso estar presente, atento e dotado de intencionalidade. Uma vida de atenção plena em um mundo que nos fragmenta o tempo todo e nos urge a procurar novidades e distrações é desafiador visto que o nosso coração humano, sedento por pertencimento e controle, na maioria das vezes, nos leva na contramão deste senso de alegria. O contentamento significa a satisfação com o que se tem agora, apreciando os pormenores que a vida lhe presenteia e isso não nos vem naturalmente.


Dias Perfeitos, tal como Vidas Passadas, mostra uma vida em que a melancolia e o contentamento muitas das vezes entremeiam-se formando aquele sentimento agridoce que nem sempre sabemos colocar em palavras— eis um retrato da vida como ela é. O contentamento certamente nos desafia, porém, a boa notícia é que essa virtude pode ser praticada e exercida com intencionalidade, enriquecendo a nossa vida de maneira imensurável. Também podemos nos maravilhar com um livro maravilho, também podemos imergir numa conversa fascinante com um amigo querido, também podemos cantar alto as músicas que amamos assim como também podemos chorar e receber afago, rir e compartilhar a alegria, ter dúvidas e ainda encontrar descanso. Viver contente é perceber que há espaço para todas essas coisas existindo em seu devido lugar.


Como disse a mãe da protagonista em Vidas Passadas: Se você deixa algo para trás, você também ganha algo.



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